segunda-feira, 3 de maio de 2010

Hermes Vieira Um Poeta Do Piauí



O “A Arte Do Meu Povo” tem a honra de homenagear o grande poeta piauiense Hermes Vieira. Segundo o site http://culturadopiaui.vilabol.uol.com.br/hvieira.htm ...

“Hermes Rodrigues Cardoso Vieira é de Elesbão Veloso. Nasceu a 23 de setembro de 1911 na Fazenda Caiçara. Fez apenas o primário, forte crise financeira não o deixou prosseguir com os estudos. Ainda pequeno foi morar em Palmeirais, de onde seguiu para Parnaíba e em seguida para Teresina, onde fixou residência. Poeta regionalista dos mais festajados, autor de vários poemas cantados por todo o nordeste brasileiro, tem aquela verse contagiante de Catulo da Paixão Cearense e o lirismo fascinante e simples de Hermínio Castelo Branco.

Obras: Nordeste (198?); Piauí Sertão (1988). “



Ainda sobre o poeta Hermes Vieira o site www.enciclopedianordeste.com.br/biografia-her... diz o seguinte:

“HERMES VIEIRA (1)
HERMES VIEIRA - POETA POPULAR
Texto de Guaipuan Vieira

Foi o acompanhando nas pescarias das lagoas adjacentes dos rios Poty e Parnaíba e nas caçadas em noites enluaradas que aprendi a gostar de sua poética e admirá-lo muito mais.
Constituía tudo isso em pano de fundo para que nos jogos sutis do raciocínio aflorasse a espontânea, habilidosa e atraente poesia,na linguagem expressiva do homem do campo .
Na construção dos versos , observa-se a eficácia de estilo próprio, fruto de criação inata, que da escola da vida o tornou autodidata.
Da mágica e do imprevisto, sua poesia brotava, celebrizando o folclore de sua região :


" Vosmincê, doutô, conhece,
Ou já viu falá no nome
Desse bicho qui aparece
Nos camim quando anoitece,
Qui se chama lubisome" ?!
Nesse cantarolar de estrofes e versos , herdeiro de vocações do homem sertanejo , traduz a expressão ingênua e resignada do sofrido homem do campo, que para amenizar as agruras da vida, carrega no bornal da esperança o terço da fé:

" E o mais triste, seu doutô
Pra nóis pobe fregelado
Si acabando aqui e ali,
É si sê fíi dum Brasi,
Dum Brasi civilizado,

Dum Brasi riligioso
Dum Brasi de tanto nome
Dum Brasi tão rico e forte
Dêrna o Su até no Norte
E morrê gente de fome !!!
A poesia de meu pai brotava dessas circunstâncias ,que na visão dos acadêmicos ,como J. Miguel de Matos , é " a maior expressão da poesia folclórica do Piaui". Arimatéia Tito Filho fez uma análise aprofundada do lirismo de Hermes Vieira quando disse " (...) abrangendo aspectos da vida e da natureza , psicologia das gentes,bichos, episódios amorosos e trágicos, alimentos, cerimônias, amores escondidos, mitos, lendas , superstições, doenças, músicas e anedotas" . O professor Josias Clarence Carneiro da Silva também reconheceu a poética : " ...o mundo fantasioso de Hermes Vieira é uma colcha de retalhos da vida campestre ..." . O professor e escritor Cineas Santos, quando na apresentação do livro PIAUI SERTÃO , desse poeta decantado , fez uma síntese da obra em verso :

"Quem conhece o Piauí,
Quem já viveu no sertão
Ao ler os versos de Hermes,
Sente brotar emoção
Calada, adormecida,
Nas brenhas do coração."

Na capital alencarina , o professor de literatura Gletson Martins , conhecedor da bagagem literária de meu pai , afirmou : "... representa os valores da nossa cultura popular. Sua poesia , repleta de figuras e flagrantes do cotidiano nordestino , exalta a beleza dos costumes do homem do campo, sem perder as sutilezas tão difíceis de retratar em uma obra de arte. (...) Grandes os homens que sabem captar o sentimento intuitivo que emana da arte , principalmente se a mesma se encontra em seu estado natural nos costumes de um povo, com suas tradições, crendices".

O poeta e jornalista Zózimo Tavares, em artigo publicado na revista DE REPENTE, de Teresina-PI, faz alusão ao saudoso poeta folclorista e indianista: " a poesia popular nordestina perdeu em 17 de julho passado uma de suas principais expressões, o piauiense Hermes Vieira. Ele morreu em Fortaleza, ao 89 anos, e foi sepultado em Teresina. O poeta está para o Piauí como Patativa do Assaré está para o Ceará. Com uma diferença: não foi cultuado por nós, como Patativa é, como muita justiça, pelos cearenses".

O poeta e professor piauiense, residente em Fortaleza, Gerardo Carvalho Frota(Pardal), Em versos saudou o inesquecivel poeta:

"Fiquei muito impressionado
Quando li Hermes Vieira
É um poeta popular
Que traz em si a verdadeira
E a mais legítima expressão
Cravada neste Sertão
De uma cultura altaneira.

Eu com seu conterrâneo
Me sinto muito orgulhoso
Pena que pessoalmente
Eu não tive o precioso
Prazer de ter conhecido
Hermes Vieira e sentido
Seu poetar valioso

Como aqui no Ceará
Tem a voz do Patativa
No Piauí também tem
Uma voz forte e ativa
Que cantou a vida inteira
O poeta Hermes Vieira
Que se manterá bem viva
(...)”




Aqui algumas poesias do grande Hermes Vieira...





Meu Nordeste

Meu Nordeste feiticeiro,
Morenão de brônzeo peito,
Genuíno brasileiro,
Eu me sinto satisfeito
Em ser filho de um teu filho
E do chão por onde trilho,
Que venero com respeito.

Meu Nordeste das moagens
Nos engenhos de madeira,
Dos açudes, das barragens,
Da lavoura rotineira,
Das desmanchas de mandioca,
Do foguete-de-taboca
Irmão gêmeo da ronqueira;

Meu Nordeste onde os velórios
São rezados no sertão,
E improvisam-se os casórios
(Sem juiz, sem capelão),
Os padrinhos e os compadres,
As madrinhas e as comadres,
Na fogueira de São João;

Meu Nordeste do bornal,
Rifle, bala e cartucheira,
Da "lombada" e do punhal,
Da "garrucha" e da peixeira,
Do cacete e do facão,
Com que um cabra valentão
Desmantela festa e feira;

Meu Nordeste em rede armada
(De algodão ou de tucum).
Aguardando a maxixada
Com quiabo e jerimurn,
Mel, canjica e milho assado,
Feijão verde e arroz torrado,
Na semana de jejum;

Meu Nordeste do baião,
Que estremece e põe "maluca"
A cabocla pé-no-chão
Do cocó ligado à nuca;
Meu Nordeste dos festejos,
Dos beijus, dos brós, dos queijos,
Da coalhada na cumbuca;

Meu Nordeste a boi de carro...
Carro-de-boi do Nordeste,
Tosco, humilde, simples, charro,
Submisso e a nada investe,
Que arrastado estrada afora,
Range, grita, canta e chora
Ajoujado à canga agreste;

Trovador da Roça

Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.

Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquista.

Muitos tigre valente, na floresta;
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.

Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.

Lamento de um Retirante Órfão

Seu doutô, vosmincê tá bisservando
Bem prali, mais pra lá desses lagêro,
Uma cova e uma crúìz já disbotando
Bem pertim desses pés de mamelêro?

Apois é nessa cova, meu patrão,
S'apagando e cuberta de capim,
Quaje nu, sem mortáia e sem caxão,
Onde tá sipurtado meu paizim.

Vê tombém essas outas piquinina
Onde o só tá bejando cum seus rai?
Sào dos meus rimãozim - Bento e Cristina,
Qui morrero do jeito de papai.

Foi a seca, esse monsto do Nordeste,
Qu'inscanchada num só devoradô,
Conduzindo um surrão de fome e peste,
Meus trêis entes quirido aqui matou.

Vivo só cum mamãi, pobe e duente,
Supricando do povo a cumpaixão;
Mais porém, muntos sombra e ri da gente
E nos dão disingano im vêiz de pão.

E o pió disso tudo, cá pra mim,
É si vê passá era e chegá era
Intregando pra muntos leite e vim,
E pra nóis sofredô, fome e miséra!

Muntos diz qui o Gunverno sempre dá
Uma ajuda pr'aqueles qui têm fome;
Mais porém, quando a ajuda sai de lá,
Outra Seca pió lhi agarra e come!

Quando chega os momento d'inleição,
As promessa têm chêro de alimento;
Mais, dispois, junto o vento elas si vão,
E nóis fica no mêrmo sufrimento!




"E VIVA A ARTE DO MEU POVO!!!!"

Um comentário:

  1. A poesia de Hermes Vieira é nata, pura como a chuva fina que exalta a natureza. É possuidor de uma rima difícil e inimitável. Seus versos têm a sílaba tônica na 3ª e sétima sílaba, tem a própria musicalidade. Ex. SEU DOUTÔ(3ª), Ó SEU DOUTÔ(7ª) O poeta é estudado pela: MÚSICA E POESIA REGIONAL: O NORDESTE NA RELAÇÃO ENTRE GEOGRAFIA E ARTE - IESA/UFG.
    José Rodrigues da Silva -São Luiz -MA

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