sábado, 22 de maio de 2010

Carneiro Portela - Poeta Popular De Coreaú



Essa busca por nomes que amam, lutam e representam a nossa boa Cultura Popular é uma tarefa gratificante, pois, dá oportunidade de conhecer trabalhos maravilhosos de gênios tupiniquins, gênios nossos. Foi em uma dessas pesquisas que conheci o trabalho do poeta Carneiro Portela. Poesias sensacionais que trouxe, um pouco, para você que também gosta dessa nossa Brasilidade, Brasileira do Brasil.
Hoje o "A Arte Do Meu Povo" homenageeia o Poeta Carneiro Portela.
No site http://www.enciclopedianordeste.com.br/617.php encontrei as seguintes palavras sobre Carneiro Portela:






Antônio Carneiro Portela nasceu em Coreaú, Ceará, a 15 de julho de 1950. Filho de Francisco Carneiro Portela e Tereza Bento Portela. Pesquisador, poeta, advogado, professor, contador, publicitário, radialista e músico.
À frente do programa 'Nordeste Caboclo', Carneiro Portela é a voz da cultura cabocla, da essência da cultura nordestina.
O apresentador teve que transpor barreiras para levar a cultura popular para a televisão. Ele se orgulha por ser o pioneiro a fazer um programa sertanejo.
Formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará, com licenciatura em Literatura e Língua Portuguesa.
Membro fundador do Clube dos Poetas Cearenses, da Associação dos Escritores Profissionais do Estado do Ceará, da União Brasileira dos Trovadores.
É sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa e da Associação Cearense de Jornalistas do Interior.
Obras publicadas: “Poemas da Minha Terra”, “Tempos de Versos” (de parceria com Pádua Lima), “Mistério Trindático” (de parceria com Pádua Lima e Élder Ximenes), “Os Novos Poetas do Ceará” Vol. I, II e III, “Nova Poesia Cearense” (antologia), “Poesia Cearense de Hoje” (antologia), “O Poeta e a Noite”, “Canto de Busca”, “Cantos da Manhã Distante”, “Canção do Medo”, “Carneiro Portela” (antologia poética), “Poesia Cabocla” Vol. I, “Máximas, Adágios e Legendas de Caminhão”, “Balada para os Fantasmas” (poesia), “Poesia de Agora” (antologia), “Ceará Caboclo” (poesia matuta), “Antologia do Apelido”.”



E no site oficial da TV Verdes Mares, o http://verdesmares.globo.com/tvdiario//noticia.asp?codigo=65789&modulo=511 encontrei:
Antônio Carneiro Portela é pesquisador, poeta, advogado, professor e músico. À frente do programa 'Nordeste Caboclo', Carneiro Portela é a voz da cultura cabocla, da essência da cultura nordestina.

O apresentador teve que transpor barreiras para levar a cultura popular para a televisão. Ele se orgulha por ser o pioneiro a fazer um programa sertanejo.

Desde a morte de Luiz Gonzaga, o autêntico forró deixou de falar do sertão, do seu povo, e perdeu o seu espaço. Com Carneiro Portela, aos domingos, a revelação indispensável de se valorizar o que é 'nosso'.”




Abaixo algumas obras desse mestre:


Se você me abandonar –
Carneiro Portela


Se você não me quiser
tomo licor de pimenta
bebo leite de jumenta
num lhe dou mais cafuné
desembrabeço a maré
pra ver a praia endoidar
eu faço a cobra fumar
se você fugir de mim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
bebo chumbo derretido
e nunca mais lhe convido
para ser minha mulher
num tem mais lua de mé
nem faço o sino tocar
nos lugares que eu pisar
num pode nascer capim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
arranco o rabo do peba
a galinha se amanceba
com outro bicho qualquer
não dá um adeus sequer
com vergonha do preá
e na hora de acordar
fica tocando clarim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
não é bom que se afoite
escovo a boca da noite
arranco a torre da sé
depois digo porque é
qui a muda não quer falar
o sol pára de brilhar
seu eu estiver sozim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
eu dou um susto na morte
talvez ela não suporte
se eu lhe der um cangapé
e na hora que eu estiver
danado pra namorar
digo a ela pra estourar
o meu amor com estupim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar

Se você não me quiser
quebro a tampa do pinico
mas sozim não sei se fico
feito carro sem chofer
me dane se eu não fizer
a minha égua rinchar
e depois que me olhar
eu jogo ela pro vizim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
eu ensino um burro a ler
e peço a ele pra dizer
que você ainda me quer
mas se ela me disser
que você não quer voltar
eu digo a ele pra falar
nem que seja no latim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.

Se você não me quiser
eu fico brabo outra vez
e monto na gata pedrez
se outra igual não houver
se ela um chute me der
não ligo, tô com azar
mas se ela não concordar
qui eu sô bem bonitim
eu vou mudar de camim
se você me abandonar.





NESTE BRASIL DE NOVELA, FUTEBOL E CARNAVAL
Carneiro Portela


Veja a coisa como anda
Nesta Pátria idolatrada
Sua honra está manchada
Apesar da propaganda
Está entrando na ciranda
Da mídia fenomenal
E todo povo em geral
Com isto se dismantela
Neste Brasil de novela
Futebol e carnaval.

É tanta vagabundagem
tanta farra e anarquia
confundem a democracia
com a própria “fuleragem”
curtição e vadiagem
bacana com bacanal
quem anima é animal
quem tem pêlo não apela
neste brasil de novela
futebol e carnaval.

Brasilzim das mordomias
dos ladrões engravatados
de tanto reais jogados
nos cofres das loterias
o Brasil dos nossos dias
está enfermo,passa mal
fechando tanto hospital
não cura tanta mazela
neste brasil de novela
futebol e carnaval.

O Brasil vive jogando
sua cultura na lama
a novela é o programa
pra gente besta pirando
carnaval de vez em quando
para o povo é triunfal
no mundo não tem rival
chega dói na espinhela
neste brasil de novela
futebol e carnaval...


CANÇÃO DO SILÊNCIO
Carneiro Portela


Eu calo pra te dizer
que o meu destino é sofrer
meu canto perdeu a cor
fico pensando sozinho
que não me dás teu carinho
porque não e tens amor.

Deste jeito o tempo passa
eu levo a vida sem graça
porque não me queres bem
não sabes que os meus sonhos
são sentidos, são tristonhos
porque vivo sem ninguém.

E tu não sabes que eu vivo
como se fosse um cativo
preso na tua lembrança
não posso quebrar a grade
que me prende na saudade
meu restinho de esperança.

O silêncio me domina
a vida é tão pequenina
pra ser vivida aos pedaços
não quero nunca que chores
mas peço que não demores
a sossegar nos meus braços.

O silêncio se faz barulho
quando acaba com o orgulho
duma mulher que se ama
depois que ela se afasta
amar sozinha não basta
porque o peito reclama.







NESTE NORDESTE CABLOCO DE MÃE PRETA E PAI JOÃO
Carneiro Portela


Meu Ceará dos forrós
do cabra bom de sanfona
onde a campina é dona
do canto dos rouxinóis
sonata que a todos nós
traz grande admiração
qual tinido do baião
na tristeza dando soco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Meu Ceará das pelejas
dos poetas cantadores
aonde os emboladores
cantam as noites setanejas
e o dinheiro das bandejas
faz parte da diversão
tem cantiga de montão
e o povo inda acha poco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Ceará das tardes mansas
banhadas todas de sol
quando é noite o arrebol
mostra que as esperanças
espalhadas na amplidão
e em plena escuridão
caboré foge do toco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Ceará da seca braba
que traz dor e sofrimento
mas quando chega o momento
toda tristeza se acaba
a chuva logo desaba
não tem mais desolação
não se vê mais precisão
não existe mais sufoco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Meu Ceará dos Fortais
que acontecem todo ano
já entramos pelo cano
nas coisas tradicionais
que pra eles não prestam mais
pra que tanto 'zuadão'
pro rico, não pro povão
que detesta este papoco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Não sei como é que o povo
que toda vida foi forte
não muda sua própria sorte
busca um destino mais novo
mas se cala neste aprovo
em qualquer situação
no prato falta feijão
na prisão falta cossoco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Nosso povo é mais amigo
nosso céu é mais azul
mas vem das bandas do sul
uma coisa que me intrigo
a novela é um castigo
feito na televisão
é uma esculhambação
quando tenta o sapiroco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Um povo discriminado
na cultura e no saber
basta você perceber
como é pobre o nosso Estaso
político pra todo lado
jura com a bíblia na mão
mas eu num acredito não
nosso destino tá broco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Ceará onde a cultura
sofre um destino cruel
e o poeta menestrel
da madrugada futura
pisa na manga mandura
que cedo caiu no chão
foi-se embora a tradição
e a gente paga o troco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão

Ceará que é esquecido
da negrada de Brasília
Ceará onde a família
do miserável sofrido
tem o futuro perdido
quando é tempo de eleição
e o político safado
fica é dando cotoco
neste nordeste caboco
de mãe preta e pai joão.





SE O NORDESTE QUISESSE
ERA TUDO DIFERENTE...
Carneiro Portela


No Brasil se o o Nordeste
quisesse viver mió
botava voz no gogó
de todo cabra da peste
e saía pelo agreste
prefumando o ambiente
pois todo cabra valente
a sua bravura conhece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

Bastava o povo querer
que fosse mais respeitado
que os deveres do Estado
fossem mesmo pra valer
e acabassem o padecer
do povo que chora e sente
para um povo independente
sujeito, não risque o “s”
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

No Brasil onde a ciência
é posta em segundo plano
nosso povo a cada ano
perde a sua inteligência
político sem decência
pois não fala francamente
mas o povo certamente
eu sei que nunca esmorece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

No País do futebol,
novela, sonho e burrice
foi isso qui mãe me disse
em manhãs claras de sol
não se cala o rouxinol
que canta lá na vertente
qual trabalha persistente
do fio que a aranha tece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

Se o nordestino não fosse
um povo bom e pacato
garanto, quebrava o prato
que mandam cheio de doce
maldizia alguém que trouxe
miséria e mágoa somente
se em fevereiro é contente
para que esquecer da prece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

Eu tenho pena do povo
que luta para viver
no país onde o PC
roubou e rouba de novo
vendo a mãe partir um ovo
pra quatro ou cinco vivente
e a fome dos inocente
é tanta quando adormece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

Acredito no sertão
qui é terra de cabra macho
pois nas águas do riacho
corre o sangue da canção
embora lhe falte o pão
para ser sobrevivente
é amigo, bravo e decente
é forte, quando padece
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.

Se meu nordeste lutasse
por dias de glória e paz
nosso povo nunca mais
tirava o riso da face
se toda esperança nasce
vou sorrir alegremente
só no plantar da semente
eu conheço se ela cresce
se o nordestino quisesse
era tudo diferente.


ELA FINGE MAS EU SEI
QUE AINDA É DOIDA POR MIM
Carneiro Portela


Ela zomba quando eu canto
me assusta quando lhe busco
não quer saber se me ofusco
quando me bota quebranto
não posso negar o tanto
do sonho que acho ruim
é por isso que vivo assim
no maior dos aperrei
ela finge mas eu sei
que inda é doida por min.

Um homem da minha idade
que não caçoa e nem diz
que a gente pra ser feliz
não pode sentir saudade
e se não fosse a amizade
que ela já me teve, enfim
não plantava no jardim
que toda vida eu reguei
ela finge mas eu sei
que inda é doida por min.

Inda tentei lhe querer
mas ela me pôs de banda
só um recadinho me manda
para eu não me aborrecer
pedindo para eu viver
bem longe do seu carim
diz no bilhete: - Toim
se arrede, saia do mei
ela finge mas eu sei
que inda é doida por mim.

Pedi que ela devolvesse
as cartas que lhe escrevi
resposta não recebi
dum assuntozim como esse
mas se ela me aparecesse
eu lhe contava tudim
do princípio até o fim
do jeito que me enganei
ela finge mas eu sei
que inda é doida por mim.





CARNEIRO PORTELA


"Sou um caboclo peitudo
desses da rede rasgada
eu nunca temi a nada
todo tempo topo tudo
nasci, cresci, tive estudo
sou filho de camponês
me criei pegando rês
num bom cavalo de cela
eu sou CARNEIRO PORTELA
este amigao de vocês"





"E VIVA A ARTE DO MEU POVO!!!"

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Lourival Batista, O Louro Do Pajeú



Ontem o “A Arte Do Meu Povo” homenageou Dimas Batista, em outra oportunidade foi a vez de Otacílio e hoje é a vez do (não menos importante) Lourival Batista , esses três irmãos deram o que falar a nossa poesia popular nordestina. É difícil , digo até impossível, saber qual dos três é o melhor.
Hoje a gente, com honra, homenageia mais um gradne poeta dos Batista, Lourival esse grande poeta popular. Pesquisando no www.portaldopajeu.com/index.php?... Encontrei o seguinte:




Lourival Batista Patriota, o Louro do Pajeú, era repentista, conside- rado o "rei do troca- dilho". Nasceu a 06 de janeiro de 1915 na Vila Umburanas, hoje Município de Itapetim (na época pertencia a São Jose do Egito). Concluiu o curso ginasial em 1933, no Recife, de onde saiu com a viola nas costas, para fazer cantorias.
Foi um dos mais afamados poetas populares do Nordeste. Irmão de outros dois repentistas famosos (Dimas e Otacílio Batista) e genro do poeta Antônio Marinho (a "Águia do sertão"), foi um dos grandes parceiros do paraibano Pinto do Monteiro. Satírico e rápido no improviso, era temido por seus competidores. Louro morreu em São José do Egito, a 05 de dezembro de 1992. “




Agora alguns dos momentos geniais da arte de Lorival Batista, o Lôro do Pajeú:



MOTE: PALHAÇO QUE RI E CHORA


I
Pinta o rosto, arruma palma
Dentre os néscios e sábios
O riso aflora-lhe os lábios
A dor tortura-lhe a alma
Suporta com toda calma
Desgostos a qualquer hora
Quando que bem, vai embora
Vive num eterno drama
Pensa, sonha, sofre e ama
Palhaço que ri e chora.

II
Se ama alguém com desvelo
Deixá-lo é martírio enorme
Se vai deitar-se não dorme
Se dorme, tem pesadelo
Sentindo um bloco de gelo
Lhe esfriando dentro e fora
Desperta, medita e cora
Sente a fortuna distante
Julga-se um “judeu errante”
Palhaço que ri e chora

III
Pelo destino grosseiro
A vida jamais lhe agrada
Se sente a alma picada
Tem que ir ao picadeiro
Não pode ser altaneiro
Não tem repouso uma hora
Chagas dentro, rosas fora
Guarda espinhos, mostra flor
Misto de alegria e dor
Palhaço que ri e chora.


IV

Palhaço tem paciência
Que da planície ao pináculo
Este mundo é um espetáculo
Todos nós, a assistência
A falta de inteligência
Gargalhamos qualquer hora
Choramos sem ter demora
Sem ânimo, coragem e fé
Porque todo mundo é
Palhaço que ri e chora.




Numa cantoria em São José do Egito, um rapaz que atendia pelo nome de DECA, ouvia os belos improvisos de Lourival, sem manifestar qualquer desejo de colaborar com os cantadores. A certa altura da cantoria, Lourival dirigiu-se ao rapaz, tomando por base as quatro letras que formavam seu apelido:


Boto o "d" e boto o "e"
Boto o "c" e boto o "a"
Depois um acento agudo
Em vez de DECA, é decá!
Tiro o "d" e tiro o "e"
Seu Deca, venha até cá.



Um cidadão por nome de André, presenciava uma cantoria de Lourival, quando ele tecia elogios aos contribuintes. A presença de André motivou o cantador para solicitar uma colaboração:

Eu me confio em André
Porque sua paga é grande
Tire o "r" e o acento
Que talvez o mesmo ande!
No princípio, bote um "m"
Por caridade, me mande.


Terso Rafael, rico fazendeiro, estava presente a uma cantoria de
Lourival
, tendo sido saudado por este, com a seguinte estrofe:

Eu vou convidar a Terso,
Para ver se Terso vem
Melhoraria de sorte
Ficaria muito bem
Se terso mandasse um terço
Dos terços que Terso tem.



Outro senhor por nome José Tota, foi chamado por Lourival, para pagar a cantoria, quando este cantava com Canhotinho:

Canhotinho está na hora
De convidar José Tota
Tire o "t" e bote o "n"
Pra nós ganharmos a nota
Tire o "n" e bote o "b"
Para ver se Tota bota.





Recebendo duas notas de um sargento que presenciava uma cantoria, Lourival agradeceu, desejando-lhe promoção na carreira militar:

As notas deste sargento
Eu gostei de recebê-las
Deus queira que estas três fitas
Se transformem em três estrelas
Subam dos braços pros ombros
E esteja vivo pra vê-las.



Um outro sargento que ouvia Lourival, não contribuía com nada, tendo recebido o que mereceu:

Esse aí não será nunca
Nem capitão nem tenente
O galão que ele merece
É um galão diferente
É um pau com duas latas
Uma atrás, outra na frente.



Num desafio, o colega que cantava com Lourival termina um estrofe dizendo:

Num velho da tua idade
Eu dou é de dez a zero!

Lourival dá a merecida resposta:


Eu muito lhe considero,
Por isso estamos cantando
O grande defeito seu
É cantar se pabulando
Você pode dar o zero
Mas o dez fica faltando!


O mês já chegouao fim
O Papa não mais existe!

Lourival concluiu com esta sextilha:

Em tudo isso o mais triste
Morrerem os dois duma vez
O mês se acabou com o Papa
E o Papa no fim do mês
O mês sendo trinta e um
E o Papa era vinte e três.






Lourival é conhecido popularmente por "Louro" ou "Lourodo Pajeú", nome inclusive do hotel do seu filho Val, em São José do Egito. Falando sobre a sua vida disse:

É muito triste ser pobre
Pra mim é uma mal perene
Trocando o "p" pelo "n"
É muito alegre ser nobre
Sendo pelo "c" é cobre
Cobre figurado é ouro
Botando o "t" fica touro
Como a carne e vendo a pele
O "T" sem o traço é "L"
Termino só sendo "Louro"!




João Andorinha, referindo-se a um romance de João Martins de Athayde, "O Dragão do Rio Negro", fez esta advertência a Lourival:

Sou igualmente ao Dragão
Do Rio Negro, falado...

Lourival deu a resposta com este trocadilho:

Pra Dragão estáserrado,
Pois Lourival já te explica
Tira letra, apaga letra
Bota letra e metrifica
Tira o "d", apaga o "r"
Bota o "c", vê como fica.




Cantando com Ivanildo Vilanova, este falou da nobreza da família:

Sou príncipe dos cantadores
Porque papai é o rei.

Lourival destrona a família:

Com seu pai eu já cantei
Com você vou ver se canto
Eu fiz o pai verter lágrima
Faço o filho verter pranto
Dou no pai e dou no filho
Só respeito o Espírito Santo.



Numa reunião de amigos, foi solicitado a glosar no mote: Mulhernão tem coração.

Um cientista profundo
Solicitou-me uma vez
Que eu enumerasse os três
Desmantelos desse mundo
Eu respondi num segundo
Doido, mulher e ladrão
E disse mais a razão:
Doido não tem paciência
Ladrão não tem consciência
Mulher não tem coração.


Cantando com Otacílio, este para instigá-lo, elogiou-se:


Sou o gigante dos versos
O Cantador ideal
No campo da poesia
A minha fama é geral
Não tenho medo de Dimas
Quanto mais de Lourival!


A resposta de Lourival:

Mas inda sou general
Você, um soldado raso
Sem luz e sem consciência
Que quando me vê, se esconde
Pra não fazer continência.


Otacílio prossegue:

Seu repente tem essência
É feito sem embaraço
Mas sua viola é tão feia
Que só parece um cabaço
Mais bonita do que ela
Eu tenho visto em palhaço.


Otacílio no momento vestia-se alinhadamente e possuía uma viola bonita, nova e enfeitada, o oposto de Lourival, fato que mereceu esta represália:


Mais feia que a dum palhaço
Mas o dono é inteligente
A sua é muito enfeitada
Mas é fraco o seu repente
Não é coleira bonita
Que faz cachorro valente!



No mote dado pelo Dr. Raimundo Asfora, "Não tive amores sonhei-os / Mas possui-los não pude", Lourival fez esta belíssima estrofe, recitada por todos os apologistas e admiradores do mestre Louro:

Na vida provei abalos
E desesperos medonhos
Sonhos, sonhos e mais sonhos
Sem nunca realizá-los
Na fronde inda trago os halos
Das auras da juventude
Porém não tive a virtude
De dormir entre dois seios
Não tive amores, sonhei-os
Mas, possuí-los não pude.



Severino Pinto cantando com Lourival se auto-elogia:

No lugar que Pinto canta
Não vejo quem o confunda
O rio da poesia
O meu pensamento inunda
Terça, quarta, quinta e sexta
Sábado, domingo e segunda.


Lourival prontamente responde:

Sábado, domingo e segunda
Terça-feira, quarta e quinta
Na sexta não me faltando
A tela, pincel e tinta
Pinto, pintando o que eu pinto
Eu pinto o que Pinto pinta!





"E VIVA A ARTE DO MEU POVO!!!"

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dimas Batista - Poeta Caboco, De Mãe Preta E Pai João!



Hoje o “A Arte Do Meu Povo” homenageia Dimas Batista um dos grandes nomes da viola e da cantoria nordestina. Um defensor ferrenho da nossa Cultura Popular e dono de uma mente privilegiada, deixou verdadeiras obras de arte em forma de poemas/composições. Alguns você vai ter o privilégio de constatar aqui.

Na minha pesquisa sobre o grande mestre encontrei muita pouca coisa na internet, a exemplo de fotos, mas no site http://poemia.wordpress.com/2008/08/04/dimas-batista-patriota-biografia/
descobri as seguinte palavras:

Dimas Batista Patriota, nasceu no ano de 1921, na então Vila Umburanas, município de São José do Egito, hoje cidade de Itapetim-PE. Filho de Raimundo Joaquim Patriota e Severina Batista Patriota ambos paraibanos. Dotado de uma intelência Privilegiada, aos cinqüenta anos de idade, formou-se em letras clássicas na mesma faculdade de onde seria professor de língua portuguesa. Era considerado o cantador mais culto de todos os tempos. Além de repentista renomeado, era historiador geógrafo e poliglota. Dimas fez a sua primeira cantoria aos quinze anos de idade, na cidade de São José do Egito. Faleceu em Fortaleza em 1986, vítima de acidente vascular cerebral; sepultou-se em tabuleiro do Norte, local onde residia. Obras: Jesus Filho de Maria; História da CNEC (Em versos); As Três cruzes;Desafio (Dimas e Cabeleira)”




Como disse acima eis aqui algumas poesias e alguns versos magestosos do grande Dimas Batista:

Quando eu pego na viola
Para cantar o Brasil:
Militar deixa o fuzil;
Jogador esquece a bola;
O aluno gazeia a escola;
O judeu sai do balcão;
O orador erra a expressão;
Pugilista perde o soco.
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Eu sou toque de corneta;
Sou barulho de batalha;
Sou o gume da navalha;
Sou a ponta da lanceta;
Sou a pancada da marreta;
Sou o golpe do facão;
Sou tiro de mosquetão;
Sou trator de arrancar toco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!

Cantador só passa em teste
Se consultar o Batista;
Porque Deus me fez artista;
Repentista do Nordeste;
Eu não temo nem a peste
Que tenha "pauta" com o "cão",
Minha voz é um trovão;
Só não houve quem for mouco:
Eita, Brasil de caboco,
De Mãe Preta, e Pai João!


ZÉ AMÉRICO DE ALMEIDA
O SALVADOR DO SERTÃO



Trinta foi ano inconstante
não houve nem fruta peco,
trinta e um foi quase seco,
trinta e dois foi torturante
tostava a face no chão,
surgiu, por Deus, um cristão
combatendo a labareda:
Zé Américo de Almeida
o salvador do sertão.

Pois, este logo depois
dirigiu um Ministério:
Não mais faltou refrigério
na seca de trinta e dois.
Bacalhau, jabá, arroz,
farinha, milho, feijão
mandou pra população,
até chita, mescla e seda
Zé Américo de Almeida
o salvador do sertão.

Matando a nudez e a fome
da pobreza sertaneja
é justo que honrado seja
pra sempre o seu santo nome.
Que onde ele chega, some
toda espécie de aflição.
Glórias mil muitas lhe dão
e outras mais Jesus conceda
Zé Américo de Almeida
o salvador do sertão.

Vaqueiros e caçadores,
Tangerinos, boiadeiros,
lenhadores e tropeiros,
marchantes, agricultores,
romeiros e cantadores
desta inculta região
conservam lembrança leda:
Zé Américo de Almeida
o salvador do sertão.





É no sangue, é no povo, é no tipo, é na raça,
é no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça;
é no pão, é no doce, é no bolo, é na massa;
é na massa, é no bolo, é no doce, é no pão;
é cruzado, é vintém, é pataca, é tostão;
é tostão, é pataca, é vintém, é cruzado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado;
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrão.

É na corda, é na ponta, é na volta, é no laço;
é no pulo, é no salto, é no chouto, é no passo;
é na unha, é no dedo, é na mão, é no braço;
é no braço, é na mão, é no dedo, é na unha;
é no brado, é no grito, é na voz, na canção.
Na canção, é na voz, é no grito, é no brado;
é quadrado, é quadrinha, é quadrilha, é quadrão;
é quadrão, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É no leste, é no oeste, é no sul, é no norte;
é no pouco, é no muito, é no fraco, é no forte;
é no berço, é na cova, é na vida, é na morte;
é criança, é menino, é rapaz, é ancião;
é estado, é cidade, é distrito, é nação.
é nação, é distrito, é cidade, é estado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado;
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É pato, capote, é peru, é galinha
é no caibro, é na ripa, é na telha, é na linha;
é salão, é saleta, é despensa, é cozinha;
é cozinha, é despensa, é saleta, é salão.
É alpendre, é latada, é bodega, é pensão,
é casebre, é palácio, é castelo, é sobrado;
é quadrado, é quadrinha, é quadrilha, é quadrão,
é quadrão, é quadrilha, é quadrinha, é quadrado.

É no grito, é no assombro, é no susto, é no medo,
é na noite, é no dia, é na tarde, é no dedo;
é na briga, é na queixa, é na intriga, é no enredo,
é espada, é cacete, é punhal, é facão.
É revólver, é pistola, é bofete, empurrão,
é cadeia, é sentença, é juiz, é soldado;
é quadrão, é quadrinha, é quadrilha, é quadrado,
é quadrado, é quadrilha, é quadrinha, é quadrão.






Deus vê do céu bem visíveis
Nossos íntimos dilemas
Pra ele não tem problemas
De soluções impossíveis
Desde que são infalíveis
Os atos do grande ser
Todos têm que obedecer
Rico, pobre, bom ou mau
Não cai a folha de um pau
Sem nosso Deus não querer

x

Fraqueza da humanidade
Alguém dirá, mas não é
Diz a tradição até
Jesus chorou de saudade
Seu coração de bondade
Da Virgem se despedia
Chorava olhando a Maria
Do Horto da Oliveira
A saudade é Companheira
De que não tem companhia

x

Os carinhos de mãe estremecida
Os brinquedos do tempo de criança
O sorriso fugaz de uma esperança
A primeira ilusão de nossa vida
Um adeus que se dá por despedida
O desprezo que a gente não merece
O delírios da lágrima que desce
Nos momentos de angústia e de desgraça
Passa tudo na vida tudo passa
Mas nem tudo que a gente passa esquece.





"E VIVA A ARTE DO MEU POVO!"

terça-feira, 18 de maio de 2010

Bob Motta, O Poeta Matuto do RN



Roberto Coutinho da Motta, o poeta Bob Motta que é da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, da União Brasileira de Trovadores - UBT – RN, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte é o homenageado de hoje do “A Arte Do Meu Povo”. Como faço toda vez pesquisei, e no site oficial do poeta o www.bobmottapoeta.com.br tive o prazer de encontrar a história de Bob em forma de poesias, esse prazer repasso para você abaixo.



Minha História

Á PROCURA DE DEUS


Um homem desesperado,
nos trôpegos passos seus,
no álcool, infeliz da vida,
desgrudou dos fariseus;
num desespero profundo,
saiu pelo meio do mundo,
louco, à procura de Deus.
Foi lá na Igreja Católica,
procurou lá no altar.
No templo dos protestantes,
todos estavam a orar.
E êle, de cima a baixo,
não sossegava o seu facho,
e nada de a Deus, encontrar.
Foi ao terreiro de humbanda,
danou-se a bater tambor,
foi à Igreja Universal,
até à Deus É Amor.
E encontrar, não conseguia,
procurando, noite e dia,
Jesus Cristo, o Salvador.
Na incessante procura,
chegou à beira do mar.
Desanimado e exausto,
sentou-se prá descansar.
E logo que êle sentou,
um garotinho, avistou,
bem sorridente, a brincar.
Acercou-se do garoto,
dizendo, de alto e bom som:
Ei; você que está brincando,
vestindo short marrom;
me diga onde Deus está;
que eu lhe dou, pode apostar,
uma caixa de bombom.
E o menino, ao mesmo tom,
lhe disse: Êle está nas ruas,
e no mundo, em todo canto,
com as mizericórdias suas.
Se queres mesmo apostar,
diga onde êle não está,
que em vez de uma, eu lhe dou duas...



M O T E

CUÉCA É SAMBA NAÇÃO
TAMBÉM GUARDA O VIL METAL

G L O S A S


1. A cuéca já guardou,
bufa e peido de rajada.
Pomba já mole e cansada,
merda que não se limpou.
Esse tempo já passou;
cuéca, agora é a tal.
No país do carnaval,
não é mais samba canção,
CUÉCA É SAMBA NAÇÃO,
TAMBÉM GUARDA O VIL METAL...

2.Não é mais samba canção,
pois está fora de moda.
Se comenta em alta roda,
CUÉCA É SAMBA NAÇÃO.
O assessor do irmão,
de Genoíno se deu mal.
Sua cuéca, afinal,
concluiu, êle, absorto;
que além do seu pinto morto,
TAMBÉM GUARDA O VIL METAL...
Autor: Bob Motta
Da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte
Da União Brasileira de Trovadores-UBT-RN
Do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
POETA MATUTO CUM NOME DE AMERICANO
O meu nome é Bob Motta,
sô matuto, bicho hôme.
Mais munta gente incucada,
seu pensamento cunsome.
Quando a questão vem à tona,
todo mundo questiona,
o pru quê dêsse meu nome.
E ais pessoa tem razão,
de istranhá, seu fulano.
Diz qui ao me registrá,
meu pai cumeteu um ingano.
Eu, um poeta matuto,
de linguajá puro e bruto,
cum nome de americano.
O meu nome era prá sê,
Mané, Ontôin ô Pêdíin.
Luiz, Tumé, Possidônio,
Damião, Juca ô Zézíin.
Zuza, Vavá, Arcelino,
Apolonho, Tributino,
ô intonce, Francisquíin.
Mais, porém, o qui acuntece,
é qui in Natá, minha mãe terra,
nascí in quarenta e oito,
dispôi da sigunda guerra.
Meu pai me levô daqui,
p'ro sertão do carirí,
p'ruis forró de pé de serra.
Natá, na sigunda guerra,
foi importante na históra.
Mode incruzá o Atrântico,
ficava na trajetóra.
E Parnamirim, bacana,
era a Base Americana,
o Trampolim da Vitóra.
Foi munto grande a influença,
qui aqui sofreu, cada crã.
Tudo qui uis cara fazia,
tarde, noite e de menhã;
foi puraqui adotado,
quage tudo assimilado,
da terra do Tio Sam.
A manêra de vistí,
a manêra de falá,
ais musga, cumportamento,
tôda curtura, afiná.
E ais jove natalense,
só quiria uis gringo, pense,
na hora de se casá.
E uis pai a batizá,
uis fíi, Richard, Jonh, Bill,
Natalie, Sebastian, Paul,
Peter, Julie ô Will.
E meu pai, de peito aberto,
butô meu nome Roberto,
era um EUA no Brasil.
E cuma o nome Roberto,
é Bob, lá pruis fulano,
assim me apilidaro,
dia a dia, ano a ano.
Eu acho qui isso ixprica,
e acaba cum a futrica,
do meu nome americano...

VOCÊ RIMA COM...- Poema Matuto

Meu amô, nêsses meus verso,
quero amostrá, pode crê,
o qui VOCÊ representa,
querida, no meu vivê.
Amostro chêi de emoção,
sem quaiqué inibição,
minhas rima prá VOCÊ.
VOCÊ rima cum meu sonho,
rima c'á minha sodade,
rima c'á minha alegria,
c'á minha necessidade.
Cum a minha inspiração,
rima c'á minha paixão,
c'á minha felicidade.
VOCÊ rima cum tezão,
cum seu bêjo apaixonado,
cum o arto astrá de sua presença,
cum meu abraço apertado.
C'as minha zurêia rôxa,
imprensada in tuais côxa,
cum eu feliz, subjurgado.
VOCÊ rima cum erotirmo,
c'á sua pele sedosa,
cum seu prefume gostoso,
cum sua vóiz melodiosa.
C'á minha língua e minha bôca,
qui lhe dêxa quage lôca,
seja in verso ô seja in prosa.
VOCÊ rima cum seus peito,
no fríi, rima cum calô,
cum um gôzo preno, infinito,
mais êsse seu trovadô.
Rima c'á luz do luá,
cum seu poeta a decramá,
prá você, versos de amô.
VOCÊ rima cum um biête,
de amô, qui iscreve prá mim,
e cum a fulô mais bunita,
do mais bunito jardim.
Isso ixprica, minha fía,
meu vivê, minha alegria,
pruquê sô feliz assim...


CARENÇA TOTÁ - Poema Matuto

Eu tô qui nem um zumbí,
andando a êrmo, sózíin,
sem você, sem seu caríin,
sem seu bêjo e seu calô.
Sem o seu surriso lindo,
eu tô infeliz da vida,
preciso de tu, querida,
preciso do teu amô.
Preciso do teu oiá,
de ficá mais tu, só nóis,
preciso da tua vóiz,
te juro, sem gaiofança.
Sofrendo c'á tua ausênça,
in nada, eu tenho consôlo,
tô cuma um minino tôlo,
chorando feito criança.
O meu sufrimento é tanto,
qui uis remendo incolocado,
sofre cum o acelerado,
do meu véio coração.
Muleque, qui nem tu sabe,
mais nêsse infiliz sufôco,
mode ixprudí, farta pôco,
qui nem bomba de São João.
A medicina num cura,
nem Pai de Santo ô Dotô,
sufrimento ô má de amô,
e eu vô munto mais além.
Se nóis se qué cumo diz,
e se ama inté demais,
só um remédio é eficaiz:
É nóis dois ficá de bem...

MEUS POEMAS AMOROSOS

Meus poemas amorosos,
com erotismo e tezão,
escrevo com o coração,
e não acho escandalosos.
Se parecem maliciosos,
é porque o falso pudor,
jogo fora, meu amor.
E tu podes ter certeza,
prá êles, busco a beleza,
no teu corpo sedutor.
Num longo aperto de mão,
no fogo do teu olhar,
num sorriso a insinuar,
a propícia ocasião.
Na doçura de um chupão,
em mil lugares gostosos.
Nos beijos maravilhosos,
de tua boca insaciável,
na tua língua incansável,
e teus seios apetitosos.
No espaço entre os dois, cheiroso,
nos teus mamilos armados,
nos teus pelos eriçados,
num abraço em pleno gôzo.
Num afago carinhoso,
no espaço prometedor,
do umbigo ao púbis, setor,
da fruta doce e gostosa,
da mais formosa das rosas,
do jardim do teu amor.
Nas coxas grossas, roliças,
no mais que lindo quadril,
em tua bunda, nota mil,
cujo meu tezão cobiça.
Na beleza da preguiça,
que vem de ti, saciada.
Em tua calcinha rendada,
em ti, sorrindo prá mim,
sobre o lençol de cetim,
languidamente estirada...

S O D A D E - Poema Matuto

Dessa palavra, sodade,
num existe tradução.
É uma dô qui quando ataca,
nuis faiz sofrê de muntão.
É dô qui quando se sente,
mexe cum tudo da gente,
lá dento do coração.
Sodade num tem plurá;
purisso véve sòzinha.
Martratando munta gente,
do seiviçá à rainha.
Machucando c'a lembrança,
ais vêiz matando a isperança,
de quem prá ela, caminha.
Faiz o valente chorá,
faiz o forte isfraquicê,
faiz a gente se lascá,
sem drumí e sem cumê.
O cabra fica reiádo,
sofrendo disisperado,
pidindo a Deus prá morrê.
E o hôme, principamente,
acredite se quizé.
Sofre c'a situação,
nisso pode fazê fé.
O cabra sofre à vontade,
se a danada da sodade,
fô do tá "bicho muié"!
O dia fica cumprido,
o cabra acorda chorando.
Passa o dia puros canto,
mocorongo, matutando.
Num consegue nem surrí,
e ais vêiz, quando vai drumí,
vai se deitá saluçando.
Mais inda resta um consolo,
digo na minha poesia.
Antes de incruzá cum ela,
facilmente tu surría.
Pode iscrevê qui é verdade;
adonde ixistí sodade,
arguém foi feliz, um dia.
Prá finalizá, eu digo,
puro mundo, andando a êrmo.
Do fundo do coração,
cum meu peito todo infêrmo.
Sodade; digo surrindo:
É isso qui eu tô sintindo,
de você agora mêrmo!...”




VOCÊ DÊXÔ UM BURACO
DENTO DO MEU CORAÇÃO
Autor: Bob Motta



Meu amô, derna do dia,
qui você num me quis mais,
perdi o sussêgo, a paiz,
de mim, fugiu a alegria.
Eu juro qui num sabia,
cuma é rim a solidão.
Se foi minha inspiração,
qui nem guiné, eu “tô fraco”,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO...

Se você nunca pensô,
qui eu sofro cum sua ausênça,
bote in sua cunsciênça,
choro inté, cum tanta dô.
Meu barco disgunvernô,
cum a nossa separação.
A nossa disunião,
dêxô seu poeta um cáco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Tá me dando um suó fríi!
O pranto qui eu tô chorando,
puro rosto, derramando,
tá quage fóimando um ríi.
No peito, eu sinto um vazíi,
farta o ar nuis meus purmão.
No sofrê dessa paixão,
tristeza sigura o táco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Se você imaginasse,
a farta qui tá fazendo,
vortava prá mim correndo,
taivêiz nunca me dêxasse.
Se me dêxando, vortasse,
eu cumia in sua mão.
Isborrotava tezão,
lá dento do meu barraco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Vô fazê uma promessa,
rezá prá São Serafim,
prá você vortá prá mim,
ligêríin, a tôda pressa.
E se acauso lhe interessa,
a minha decraração;
de nossa chamegação,
tá vazíi o meu bisaco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Quando você foi s’imbora,
chorei qui nem u’a criança,
sem amô, sem isperança,
saluçando a tôda hora.
No meu peito isquerdo, mora,
de sodade, um caminhão.
Definhando de paixão,
eu fiquei prá lá de fraco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Arrelembrando, querida,
dispôi do amô, a fadiga,
tenho sodade dais briga,
qui nóis tinha in nossa vida.
Dispôi da tua partida,
vêjo a dona inspiração,
transfóimada in emoção,
invadindo o meu barraco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Meu amô, juro por Deus;
me sinto numa marmôrra,
se tu num quizé qui eu morra,
vorte para uis braços meus.
Uis meus zói qué vê uis teu,
daquele jeito pidão.
Prá você, cantei canção,
dispôi de chêrá tabaco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO.

Muié, será qui eu mereço ?
Tu fêiz um istrago danado,
e o poeta apaixonado,
arrivirô puro avêsso.
O meu peito era o teu berço,
teu cubertô, minhas mão.
Uis meus verso era um refrão,
qui nunca lhe inchía o saco,
VOCÊ DÊXÔ UM BURACO,
DENTO DO MEU CORAÇÃO...







Mote: DRUMÍ NA NOITE DUIS SONHO/ INVÔRTO NUIS TEUS CABÊLO...
G L O S A S


1. Adispôi de tumá banho,
e tê cuntigo, um gostoso,
incronto munto amoroso,
DRUMÍ NA NOITE DUIS SONHO.
Uis pensaamento tristonho,
misturei cum uis pesadêlo.
Iscuiendo entre uis mudêlo,
de um mundo aalegre e feliz,
drumí cumo sempre quiz,
INVÔRTO NUIS TEUS CABÊLO...

2. Feliz, cuntigo ao meu lado,
andei pru tôda a cidade,
chêíin de felicidade,
totaimente apaixonado.
Dispôi de tê saciado,
nosso amô in dirmantêlo,
fugindo duis pesadêlo,
daquêles oiá tristonho,
DRUMÍ NA NOITE DUIS SONHO,
INVÔRTO NUIS TEUS CABÊLO...



QUANTO MAIS PENSO QUI SEI/MAIS EU PRICISO APRENDÊ...



I
Tive no Jardim da Infança,
decorei a tabuada,
subi uis degrau da iscada,
do meu tempo de criança.
Tinha no peito a isperança,
de me fóimá, pode crê.
Li a Carta do ABC,
e vi dispôi qui me fôimêi;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
I
Desci morro, subi serra,
sufrí cum a sêca e calô,
decramei versos de amô,
fiz da poesia, anti guerra.
Nuis sertão de minha terra,
tive um alegre vivê.
Na sêca era um padicê;
de disispêro, chorei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
III
Cantei musga de paiáço,
de circo e de pasturil.
No Nordeste do Brasil,
istudei sobre o cangaço.
Amanhincí dando amasso,
bêjando meu bem querê.
Ela é cansa de sabê,
qui ao lhe vê me apaixonei,
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
IV
Aprindí fazê cabresto,
a corrê in vaquejada,
a fazê quêjo e quaiáda,
a pesca num ríi, cum cêsto.
A corrê in disimbêsto,
a rezá no amanhincê,
a Jesus agradicê,
por tudo o qui já ganhei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
V
Fiz aifabetização,
primáro e ginasiá.
Quando fui me graduá,
fiz adiministração.
A mais priciosa lição,
qui eu aprindí, pode crê,
eu vô dizê prá você,
qui jamais isquecerei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
VI
Sempre gostei do agito,
dento do meu universo.
Aprindí a fazê verso,
lá na Mina do Bunito.
No mêi daquele isquisito,
na rêde, ao anoiticê,
uvindo o fole gemê,
prá poesia dispertei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
VII

Aprindí qui hôme chora,
de emoção, de sodade,
de dô, de felicidade,
ô quando o amô vai s’imbora.
Quando chega a sua hora,
e sabe qui vai morrê.
Quando inganado se vê;
E prá si, diz: Me lasquei!;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
VIII
Aprindí qui no sertão,
quando arapuá faiz mé,
cai munta chuva, agrané,
mióra a situação.
Qui o matuto, meu irmão,
pranta, pensando in cuiê.
Qui seus dia de sofrê,
tão contado, isso é de lei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
IX
Qui o sêbo do carnêro,
é um bom remédio, é fato.
Qui duis remédio do mato,
êle é um milagrêro.
Qui o bode pai de chiquêro,
sabe quando vai chuvê.
Qui do idoso, o paricê,
é a palavra de um rei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
X
Qui a banha da cascavé,
é remédio milagroso.
Qui iguaimente puderôso,
a banha do tejo, é.
Qui a bôrra do café,
tombém tem o seu pudê.
Mêrmo pudendo dizê,
qui nisso eu me dotôrei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
XI
Qui no prantío de míi,
é trêis carôço numa cova.
Qui crumatã só disóva,
in água nova, meu fíi.
Qui numa noite de fríi,
mode o cabra se aquecê,
é só butá prá fêivê,
leite e tumá um copo chêi;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ.
XII
Purorde de Deus, me fiz,
um pesquisadô silvestre.
NUM SÔ PROFESSÔ NEM MESTRE,
SÔ UM ETERNO APRINDIZ.
Purisso é qui eu sô feliz,
rescordando o meu vivê.
A Deus, só agradicê,
tudo o qui d’Êle, ganhei;
QUANTO MAIS PENSO QUI SEI,
MAIS EU PRICISO APRENDÊ...







A PELEJA DAIS GALINHA

DE GRANJA X CAIPIRA

( Bob Motta )



Foi no Bom Dia Brasil,
qui incrontei inspiração,
na matéria apresentada,
a toda nossa Nação.
De norte a sul, leste a oeste,
do litoral ao sertão.

Falava sobre o manejo,
que o homem do campo manja.
Tira da dificurdade,
a solução e se arranja.
Pru mode criá galinha,
seja caipira ô de granja.

Na minha imaginação,
eu enxergo claramente,
uma ferrenha discussão,
que agitou o ambiente.
E vou contar prá vocêis,
uma peleja deferente.

Direcionei a mente,
apontei a sua mira,
prá dento do galinhêro,
onde brigava na ira,
uma galinha de granja,
com uma galinha caipira.

De granja: Tu é uma galinha otária,
véve numa eterna luta.
Mode arrumá o qui cumê,
de menhã à noite é puta.
E prá cagá o qui come,
bota uma fôrça bruta.

Caipira: Tua vida é munto curta,
munto pôco tempo dura.
Toma hormônio prá crescê,
come ração sem mistura.
a tua carne é sem gôsto,
prá quem come, é merda pura.

De granja: Tu num é munto deferente.
tem mais longa atua vida,
mode a demora in crescê,
pru mode sê cunsumida.
Leva quage sete mêis,
inté quando é abatida.

Caipira: Mais in valô nutritivo,
juro qui d’eu, tu num ganha.
Do meu vulume de carne,
de capote, tu apanha.
E adispôi de tu guizada,
se dirmancha tôda in banha.

De granja: Mais quando arguém tá doente,
qui precisa de uma canja,
de uma cumida inucente,
a mãe, cum coidado arranja,
mode dá cumo remédio,
uma galinha de granja.

Caipira: Adispôi qui a muié pári,
na hora do seu resguardo,
quando o mininíin nasce,
e alivêia o seu fardo,
mode se recuperá,
vem logo atráis do meu cardo.

De granja: Tu só come do pió,
posso inté fazê aposta.
Passa fome de muntão,
de todo bascúio tu gosta.
E quando tua fome aperta,
bebe mijo e come bosta.

Caipira: Tu cum bestêra e teu ôvo,
pôco à pessoa, alimenta.
É mais barato, tá certo,
porém, a ninguém sustenta.
Teu ôvo é vinte centavo,
o meu, é quage cinquenta.

De granja: Tu cum essa pabulage,
se acha isperta prá xuxú.
Mais, pru mode lhe intupí,
eu vô preguntá prá tu:
Tu acha qui trinta centavo,
compensa eu rasgá meu cú ?

Caipira: Eu passo o dia no mato,
de noite venho discansá.
Me assubo no pulêro,
fico inté o só raiá.
Tu é cumendo direto,
lá nuis gaipão, sem pará.

De granja: Dia e noite sem pará,
na ração eu vô vivendo.
Eu aqui na mordomia,
e tu no mato, sofrendo.
Cumendo munturo e bosta,
e uis galo te cumendo.

Caipira: Se uis galo tão me cumendo,
eu chega mudo de tom.
Da zuada qui nóis faiz,
munto longe se ôice o som.
Eu levando chibatada,
cantando e achando bom.

De granja: Falando de cumpanhêro,
de tu, aí tombém ganho.
Prá galo qui nem uis teu,
eu juro qui num me assanho.
Uis teu é piquininíin,
e uis meu é dêsse tamanho.

Caipira: Uis teu é dêsse tamanho,
mais prá eu é infadado.
Abasta dá umazinha,
fica arquejando, cansado.
Meus piquininíin é macho,
e dá conta do recado.

De granja: De mim, tudo é mais barato,
ao alcance do povão.
Sô o prato preferido,
do impregado e do patrão.
In quaiqué país do mundo,
tô no mêi da nutrição.

Caipira: Nóis tem o nosso valô,
tu na tua e eu na minha.
No armôço, lanche ô janta,
cum cuscuz de menhãzinha,
num tem nada mais gostoso,
do qui a gente, a galinha.

De granja: Mais cum o saláro do pobre,
no Brasí, infilirmente,
nem eu nem tu vai na mesa,
dêsse sufrido vivente.
Pobre só come galinha,
se um duis dois tivé doente...





"VIVA A ARTE DO MEU POVO!"

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Santana - O Cantador Da Nossa Cultura Popular



Hoje o “A Arte Do Meu Povo” homenageia Santana – O Cantador. Você pode ta se perguntando, mas o objetivo do blog não é divulgar e homenagear pessoas que não tem acesso a grande mídia? Santana tem um bom acesso. E eu respondo, é verdade que Santana já é bem conhecido do grande público, mas não tanto quanto merece. Pelo que esse rapaz faz para divulgar a nossa Cultura Popular Nordestina, ele merece ser reverenciado, e na minha opinião toda homenagem é pouca. Então é com orgulho que está aqui para você Santana – O Cantador.

A pesquisa foi feita no site oficial do cantador http://www.santannacantador.com.br/, de lá retirei as seguintes palavras:




Santanna - O Cantador
O maior influenciador do seu estilo é o imortal Rei do Baião, Luiz Gonzaga.

Em 1984, veio conhecer Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, de quem se tornou amigo particular. A admiração pelo Rei transformou-se em grande amizade. Participou de vários shows seus, fazendo a abertura e, em seguida, fazendo vocal.

Tornou-se cantor profissional em 1992.

Santanna é um artista nordestino nascido em Juazeiro do Norte - CE, em 29 de fevereiro de 1960, recebido pelas mãos firmes, calosas e carinhosas da parteira Maria Baião. Dizem, que foi aí que se ouviu o seu primeiro aboio.

Santanna, o Cantador, descende de família de artistas e teve, na sua infância, a influência do aboio do vaqueiro nordestino, do canto das lavadeiras, do canto das rezadeiras e, finalmente, do canto dos cantadores violeiros e emboladores.”




Embora sendo um grande intérprete da música popular, em especial do forró, Santana tem parcerias em composições maravilhosas como estas aqui:




Nunca Chore Por Mim
(Santanna/Luiz Alberto Machado)


Nunca chore por mim
Não chore não
Que um dia eu volto
Pra te buscar
A partida e o caminho
Nas minhas mãos
E olhos da vida
A me vigiar
Eu percebo o destino sob os meus pés
E a saudade no peito agourando a solidão
O exílio e o aceno na estação
Incidem na voz um lamento de adeus
De quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier

É seguir cada qual a sina de agora
Desatino vadio da ilusão
O apito do trem apressa a hora
Marcando o compasso do meu coração
Cada rosto se expõe na dor que chora
Quando o sonho é varrido pela paixão
Já é tarde estou indo, eu vou embora
É que o choro arrocha o nó da canção
De quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier

Perdão dos amores desfeitos na tora
Arrancados no véu da contra-mão
Fizeram outono na minha história
Atraindo abono e a distração
Pelas ruas ganhei a pose e o disfarce
O abraço e o perigo da delação
Para a vida ofereço a outra face
E pra morte celebro a confissão
De quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier.





O Verbo “Se”
(Accioly Neto/ Santanna)


Dizem que os olhos da gente
São as janelas da alma
Que o mundo não pode abrir
E eu preservo os meus segredos
Por quantos dias não sei
Pra quem ousar descobrir
Dizem que os olhos da gente
Revelam, entregam.
Que quanto mais for profundo
Mais fácil se trai
As intenções lá de dentro
Desejos ocultos
De certas bocas que dizem:
Você nunca mais!
Dessa água não beberei
Eu nunca mais vou ser triste
Desse tempo eu já passei
O verbo “se” não existe.






Orvalho de Estrelas
(Anchieta Dali/ Santanna)


Bem
Em teu olhar
Mora o sorriso radiante
Das centelhas do amor

Vem
Do céu, do mar
Do infinito mais profundo
Dos confins da maravilha

De lá de onde
Nascem os desejos
Que cristalizam
Os segredos da paixão

De lá de onde
Nascem os desejos
Que cristalizam
Os segredos da paixão

Então se vê
Um orvalho de estrelas
E um banho de lua cheia
Lava o rosto da saudade

Então se vê
Um orvalho de estrelas
E um banho de lua cheia
Lava o rosto da saudade.







Xote Universitário
(Accioly Neto/ Santanna)


Eu perdi o vestibular de medicina
Minha mãe ficou zangada e eu nem um pouco
Eu não sei, mas talvez seja muito louco
Aprender a receitar Penicilina
Sou nervoso e tenho medo de ver sangue
E a família quer me ver na cirurgia
Costurando quem vem lá do “bang bang”
Que aparece na TV, pois acontece todo dia.
Pra ter um anel no dedo
E um DR no nome
Ser um grande homem
Feliz e famoso
Mudar de repente
Meu comportamento
Tão escandaloso
Casar com uma virgem que nem minha tia
Não me envolver com essa má companhia
Que não se penteia, freqüenta cadeia
E lugar perigoso
Tenho medo da policia e de bandido
Alergia a marido corneado
E um irmão que não me sai do pé do ouvido
Me dizendo que eu devia estudar pra advogado
Outro diz pra eu estudar engenharia
Mesmo sem ter vocação
E eu digo: esqueça!
E pergunto se esse peste gostaria
Que o prédio que eu fizesse lhe caísse na cabeça.




"E VIVA A ARTE DO MEU POVO!!!"

domingo, 16 de maio de 2010

Cego Aderaldo O Mito Da Cultura Popular Do Brasil



Existem figuras mitológicas dentro da nossa Cultura Popular, existiram, mas devido a sua qualidade e genialidade mudou de categoria, um dos nomes dessa nobrecategoria, é o do Cego Aderaldo, figura maravilhosa e incontestável como poeta, violeiro e cantador, esse é o homenageado de hoje do “A Arte Do Meu Povo

Encontrei, na minha pesquisa, sobre o Cego Aderaldo diversos sites falando sobre ele, escolhi as palavras do wikipedia, que seguem:




“Aderaldo Ferreira de Araújo (nasceu no Crato, no dia 24 de junho de 1878 e viajou antes do combinado em Fortaleza,no dia 29 de junho de 1967), mais conhecido como "Cego Aderaldo" foi um poeta popular cearense que se destacou por seu raciocínio rápido improvisando rimas e repentes.
O cego Aderaldo descobriu o dom da rima em Quixadá, pouco depois de perder a visão em um acidente. Segundo o próprio, a descoberta ocorreu quando teve um sonho em versos. Quando sua mãe faleceu, cego Aderaldo decidiu viajar pelo sertão nordestino fazendo suas rimas.
Em 1914, disputou um desafio de rimas com Zé Pretinho (conhecido repentista do Piauí). Sua desenvoltura no desafio o consagrou definitivamente. O duelo dos dois poetas foi registrado por Firmino Teixeira do Amaral no cordel A peleja de Cego Aderaldo e Zé Pretinho.
Cego Aderaldo morreu em Fortaleza aos 89 anos, sem nunca ter casado, criando porém 24 filhos adotivos.”




Quem a paca cara compra, paca cara pagará!
(Peleja com Zé Pretinho dos Tucuns)
Cego Aderaldo
(Aderaldo Ferreira de Araújo)



Apreciem, meus leitores,
Uma forte discussão,
Que tive com Zé Pretinho,
Um cantador do sertão,
O qual, no tanger do verso,
Vencia qualquer questão.
Um dia, determinei
A sair do Quixadá
— Uma das belas cidades
Do estado do Ceará.
Fui até o Piauí,
Ver os cantores de lá.
Me hospedei na Pimenteira
Depois em Alagoinha;
Cantei no Campo Maior,
No Angico e na Baixinha.
De lá eu tive um convite
Para cantar na Varzinha.
Quando cheguei na Varzinha,
Foi de manhã, bem cedinho;
Então, o dono da casa
Me perguntou sem carinho:
— Cego, você não tem medo
Da fama do Zé Pretinho?
Eu lhe disse: — Não, senhor,
Mas da verdade eu não zombo!
Mande chamar esse preto,
Que eu quero dar-lhe um tombo
— Ele chegando, um de nós
Hoje há de arder o lombo!
O dono da casa disse:
— Zé Preto, pelo comum,
Dá em dez ou vinte cegos
— Quanto mais sendo só um!
Mando já ao Tucumanzeiro
Chamar o Zé do Tucum.
Chamando um dos filhos, disse
Meu filho, você vá já
Dizer ao José Pretinho
Que desculpe eu não ir lá
— E que ele, como sem falta,
Hoje à noite venha cá.
Em casa do tal Pretinho,
Foi chegando o portador
E dizendo: — Lá em casa
Tem um cego cantador
E meu pai mandou dizer-lhe
Que vá tirar-lhe o calor!
Zé Pretinho respondeu:
— Bom amigo é quem avisa!
Menino, dizei ao cego
Que vá tirando a camisa,
Mande benzer logo o lombo,
Porque vou dar-lhe uma pisa!
Tudo zombava de mim
E eu ainda não sabia
Se o tal do Zé Pretinho
Vinha para a cantoria.
As cinco horas da tarde,
Chegou a cavalaria.
O preto vinha na frente,
Todo vestido de branco,
Seu cavalo encapotado,
Com o passo muito franco.
Riscaram duma só vez,
Todos no primeiro arranco
Saudaram o dono da casa
Todos com muita alegria,
E o velhote, satisfeito,
Folgava alegre e sorria.
Vou dar o nome do povo
Que veio pra cantoria:
Vieram o capitão Duda Tonheiro,
Pedro Galvão, Augusto Antônio Feitosa,
Francisco, Manoel Simão,
Senhor José Campineiro,
Tadeu e Pedro Aragão.
O José das Cabaceiras
E o senhor Manoel Casado,
Chico Lopes, Pedro Rosa
E o Manoel Bronzeado,
Antônio Lopes de Aquino
E um tal de Pé-Furado.
Amadeu, Fábio Fernandes,
Samuel e Jeremias,
O senhor Manoel Tomás,
Gonçalo, João Ananias
E veio o vigário velho,
Cura de Três Freguesias.
Foi dona Merandolina,
Do grêmio das professoras,
Levando suas duas filhas,
Bonitas, encantadoras
— Essas duas eram da igreja
As mais exímias cantoras.
Foi também Pedro Martins,
Alfredo e José Segundo,
Senhor Francisco Palmeira,
João Sampaio e Facundo
E um grupo de rapazes
Do batalhão vagabundo.
Levaram o negro pra sala
E depois para a cozinha;
Lhe ofereceram um jantar
De doce, queijo e galinha
— Para mim, veio um café
E uma magra bolachinha.
Depois, trouxeram o negro.
Colocaram no salão,
Assentado num sofá,
Com a viola na mão,
Junto duma escarradeira,
Para não cuspir no chão.
Ele tirou a viola
De um saco novo de chita,
E cuja viola estava
Toda enfeitada de fita.
Ouvi as moças dizendo:
— Oh, que viola bonita!
Então, para eu me sentar,
Botaram um pobre caixão,
Já velho, desmantelado,
Desses que vêm com sabão.
Eu sentei-me, ele vergou
E me deu um beliscão.
Eu tirei a rabequinha
De um pobre saco de meia,
Um pouco desconfiado
Por estar em terra alheia.
Aí umas moças disseram:
— Meu Deus, que rabeca feia!
Uma disse a Zé Pretinho:
— A roupa do cego é suja!
Botem três guardas na porta,
Para que ele não fuja
Cego feio, assim de óculos,
Só parece uma coruja!
E disse o capitão Duda,
Como homem muito sensato:
— Vamos fazer uma bolsa!
Botem dinheiro no prato
— Que é o mesmo que botar
Manteiga em venta de gato!
Disse mais: — Eu quero ver
Pretinho espalhar os pés!
E para os dois contendores
Tirei setenta mil réis,
Mas vou completar oitenta
— Da minha parte, dou dez!
Me disse o capitão Duda:
— Cego você não estranha!
Este dinheiro do prato,
Eu vou lhe dizer quem ganha:
Só pertence ao vencedor
— Nada leva quem apanha!
E nisto as moças disseram:
— Já tem oitenta mil réis,
Porque o bom capitão Duda,
Da Parte dele, deu dez...
Se acostaram a Zé Pretinho,
Botaram mais três anéis.
Então disse Zé Pretinho:
— De perder não tenho medo!
Esse cego apanha logo
— Falo sem pedir segredo!
Como tenho isto por certo,
Vou pondo os anéis no dedo...
Afinemos o instrumento,
Entremos na discussão!
O meu guia disse pra mim:
— O negro parece o Cão!
Tenha cuidado com ele,
Quando entrarem na questão!
Então eu disse:
— Seu Zé, Sei que o senhor tem ciência
— Me parece que é dotado
Da Divina Providência!
Vamos saudar este povo,
Com sua justa excelência!
PRETINHO
— Sai daí, cego amarelo,
Cor de couro de toucinho!





Um cego da tua forma
Chama-se abusa-vizinho
— Aonde eu botar os pés,
Cego não bota o focinho!
CEGO
— Já vi que seu Zé Pretinho
É um homem sem ação
Como se maltrata o outro
Sem haver alteração?!...
Eu pensava que o senhor
Tinha outra educação!
P.
— Esse cego bruto, hoje,
Apanha, que fica roxo!
Cara de pão de cruzado,
Testa de carneiro mocho
— Cego, tu és o bichinho,
Que comendo vira o cocho!
C.
— Seu José, o seu cantar
Merece ricos fulgores;
Merece ganhar na saia
Rosas e trovas de amores
— Mais tarde, as moças lhe dão
Bonitas palmas de flores!
P.
— Cego, eu creio que tu és
Da raça do sapo sunga!
Cego não adora a Deus
— O deus do cego é calunga!
Aonde os homens conversam,
O cego chega e resmunga!
C.
— Zé Preto, não me aborreço
Com teu cantar tão ruim!
Um homem que canta sério
Não trabalha verso assim
— Tirando as faltas que tem,
Botando em cima de mim!
P.
— Cala-te, cego ruim!
Cego aqui não faz figura!
Cego, quando abre a boca,
É uma mentira,pura
— O cego, quanto mais mente,
Ainda mais sustenta e jura!
C.
— Esse negro foi escravo,
Por isso é tão positivo!
Quer ser, na sala de branco,
Exagerado e altivo
— Negro da canela seca
Todo ele foi cativo!
P.
— Eu te dou uma surra
De cipó de urtiga,
Te furo a barriga,
Mais tarde tu urra!
Hoje, o cego esturra,
Pedindo socorro
— Sai dizendo: — Eu morro!
Meu Deus, que fadiga!
Por uma intriga,
Eu de medo corro!
C.
— Se eu der um tapa
No negro de fama,
Ele come lama,
Dizendo que é papa!
Eu rompo-lhe o mapa,
Lhe rompo de espora;
O negro hoje chora,
Com febre e com íngua
— Eu deixo-lhe a língua
Com um palmo de fora!
P.
—No sertão, peguei
Cego malcriado
— Danei-lhe o machado,
Caiu, eu sangrei!
O couro eu tirei
Em regra de escala:
Espichei na sala,
Puxei para um beco
E, depois de seco,
Fiz mais de uma mala!
C.
—Negro, és monturo,
Molambo rasgado,
Cachimbo apagado,
Recanto de muro!
Negro sem futuro,
Perna de tição,
Boca de porão,
Beiço de gamela,
Vento de moela,
Moleque ladrão!
P.
— Vejo a coisa ruim
— O cego está danado!
Cante moderado,
Que não quero assim!
Olhe para mim,
Que sou verdadeiro,
Sou bom companheiro
— Canto sem maldade
E quero a metade,
Cego, do dinheiro!
C.
— Nem que o negro seque
A engolideira,
Peça a noite inteira
Que eu não lhe abeque
— Mas esse moleque
Hoje dá pinote!
Boca de bispote,
Vento de boeiro,
Tu queres dinheiro?
Eu te dou chicote!
P.
— Cante mais moderno,
Perfeito e bonito,
Como tenho escrito
Cá no meu caderno!
Sou seu subalterno,
Embora estranho
— Creio que apanho
E não dou um caldo...
Lhe peço, Aderaldo,
Que reparta o ganho!
C.
— Negro é raiz
Que apodreceu,
Casco de judeu!
Moleque infeliz,
Vai pra teu país,
Se não eu te surro,
Te dou até de murro,
Te tiro o regalo
— Cara de cavalo,
Cabeça de burro!
P.
— Fale de outro jeito,
Com melhor agrado
— Seja delicado,
Cante mais perfeito!
Olhe, eu não aceito
Tanto desespero!
Cantemos maneiro,
Com verso capaz
— Façamos a paz
E parto o dinheiro!
C.
— Negro careteiro,
Eu te rasgo a giba,
Cara de gariba,
Pajé feiticeiro!
Queres o dinheiro,
Barriga de angu,
Barba de guandu,
Camisa de saia,
Te deixo na praia,
Escovando urubu!
P.
— Eu vou mudar de toada,
Pra uma que mete medo
— Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse este enredo:
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!
C.
— Zé Preto, esse teu enredo
Te serve de zombaria!
Tu hoje cegas de raiva
E o Diabo será teu guia
— É um dia,
é um dedo, é um dado,
É um dado, é um dedo, é um dia!
P.
— Cego, respondeste bem,
Como quem fosse estudado!
Eu também, da minha parte,
Canto versos aprumado
— É um dado, é um dia, é um dedo,
É um dedo, é um dia, é um dado!
C.
— Vamos lá, seu Zé Pretinho,
Porque eu já perdi o medo:
Sou bravo como um leão,
Sou forte como um penedo
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo!
P.
— Cego, agora puxa uma
Das tuas belas toadas,
Para ver se essas moças
Dão algumas gargalhadas
— Quase todo o povo ri,
Só as moças 'tão caladas!
C.
— Amigo José Pretinho,
Eu nem sei o que será
De você depois da luta
— Você vencido já está!
Quem a paca cara compra
Paca cara pagará!
P.
— Cego, eu estou apertado,
Que só um pinto no ovo!
Estás cantando aprumado
E satisfazendo o povo
— Mas esse tema da paca,
Por favor, diga de novo!
C.
— Disse uma vez, digo dez
— No cantar não tenho pompa!
Presentemente, não acho
Quem o meu mapa me rompa
— Paca cara pagará,
Quem a paca cara compra!
P.
— Cego, teu peito é de aço
— Foi bom ferreiro que fez
— Pensei que cego não tinha
No verso tal rapidez!
Cego, se não é maçada,
Repete a paca outra vez!
C.
— Arre! Que tanta pergunta
Desse preto capivara!
Não há quem cuspa pra cima,
Que não lhe caia na cara
— Quem a paca cara compra
Pagará a paca cara!
P.
— Agora, cego, me ouça:
Cantarei a paca já
— Tema assim é um borrego
No bico de um carcará!
Quem a caca cara compra,
Caca caca cacará!
Houve um trovão de risadas,
Pelo verso do Pretinho.
Capitão Duda lhe disse:
—Arreda pra lá, negrinho!
Vai descansar o juízo,
Que o cego canta sozinho!
Ficou vaiado o pretinho.
E eu lhe disse:
— Me ouça, José: quem canta comigo
Pega devagar na louça!
Agora, o amigo entregue
O anel de cada moça!
Me desculpe, Zé Pretinho,
Se não cantei a teu gosto!
Negro não tem pé, tem gancho;
Tem cara, mas não tem rosto
— Negro na sala dos brancos
Só serve pra dar desgosto!
Quando eu fiz estes versos,
Com a minha rabequinha,
Busquei o negro na sala,
Mas já estava na cozinha
— De volta, queria entrar
Na porta da camarinha!






Cantorias
Cego Aderaldo
(Aderaldo Ferreira de Araújo)
blockquote>Relata o Cego Aderaldo:

"Em Belém do Pará eu conheci muitos cantadores. Mas o mais afamado, que emendou a camisa comigo, foi o índio Azuplim. Nossa batida foi a que se segue..."

Eu saí do Ceará
Deixei meu triste mocambo,
Com medo do dezenove,
Este pesadelo bambo.
Vinha o coronel Monturo
Junto com doutor Molambo...
A dona fome na frente,
Na cadeira do trapiche,
Dizendo: No Ceará
Tudo é fofo e nada é fixe.
Juro que aqui nesta terra
Não vinga mais nem maxixe...
A dona Fome me olhou
E disse a mim: — Eu pego!
Eu disse: — Não senhora!
Eu sei por onde navego,
Quem tem vista corre logo,
Quanto mais eu sendo cego...
Segui para Fortaleza,
Dei uma viagem além.
O barco era o "Maranhão",
E até corria bem,
Com três dias e três noites
Chegando nós em Belém...
Quando eu cheguei em Belém,
Me encostei naquele cais.
— Aonde vai esta linha?
Eu perguntei a um rapaz
Ele disse: — Nesta linha
Passa um trem para São Brás...
Eu parti para São Bras,
Para casa de Gaudêncio
Que já conhecia bem,
Ele, Salina e Merêncio;
Junto estes amigos
Não pude guardar silêncio...
Fui para Madre de Deus,
Terra de um povo fiel,
Ali ganhei qualquer cousa
Tomei açaí com mel,
De manhã peguei o trem,
Fui para Santa Isabel...
Depois fui para Americana,
Cantei lá no Apéu,
Do sitio de São Luís
Eu fui pra Jambuaçu;
Eu cantei no Castanhal,
E no Igarapeaçu...
No primeiro Caripi
Eu cantei, lá fui feliz,
No segundo Caripi
Cantei tudo quanto quis,
E ali tomei o trem,
Fui cantar em São Luís....
Ali chegou um convite,
Eu para Muricizeira,
Depois, cantei no Burrinho
Cantei no Açaí Teuã...
Fui cantar no Timboteuã...
Segui para Capanema
Com coragem e esperança.
Passei uns dois ou três dias
E segui para Bragança,
Dizendo sempre comigo:
— Quem espera em Deus não cansa...
Quando eu cheguei em Bragança,
Não quis ir no Benjamim,
Não encontrando hospedagem,
Me hospedei num botequim,
Que era coberto e cavaco
E circulado a capim...
O dono do botequim
Veio a mim e perguntou:
— Cego de onde tu és?
Me diga se é cantador.
Me diga se não tem medo
De azuplim trovador...
Me perguntei: — Não senhor!
Será algum rio-grandense
Ou mesmo um paraibano,
Ou um cantador cearense?
Ele disse: — Não senhor,
É um cantor paraense...
Quando findei a palavra
Vi o paraense chegar,
Ele trazia consigo
Uma viola e um ganzá,
E trazia um tamborim,
Que é instrumento de lá...
Ele afinou a viola,
Quando bateu no ganzá,
Deu um tom no tamborim
Para o baião entoar,
Eu tirei a rabequinha
E fiz a prima chorá...
Cego — Eu lhe disse: — Oh! Paraense,
És uma ninfa de fada,
Teu cântico me parece
A deusa da madrugada.
Eu lhe peço, amicíssimo,
Que cante a sua toada...
Azuplim — Cego, minha toada é,
Um trabalhador garantido.
Você pra cantar mais eu
Precisa ser aprendido,
Queira Deus tu me acompanhe, ai ai!
Pra cantar nesse gemido...
C — Meu amigo, o teu gemido,
Tem destacado valor,
Canta bem perfeitamente,
Já vi que é bom cantador,
Mas amigo, esse gemido,
Me desculpe , que eu não dou...
A — Se num dás um só gemido
Também não és cantador,
Vá cobrar logo o dinheiro.
Do mestre que lhe ensinou, ai, ai!
O cego já apanhou...
C — Se gemer foi cantoria,
Você é bom cantador,
Pois gemes perfeitamente,
No gemido tem valor,
Mas geme com grande dor...
A — Ou que gema ou que não gema,
A boa palavra encerra,
Cego, cante aqui mais eu,
Que eu vim lhe fazer guerra,
Quero que você me diga, ai, ai!
A linguagem da minha terra...
C — A linguagem da tua terra,
Não é linguagem mesquinha,
É toda no guarani
Estudada, é bonitinha!
Para que não perguntaste
A linguagem da terra minha?...
A — Eu quero é que diga da minha
Por que muda de figura:
Cego, diga para mim
O que nós chama mucura,
Quero que você me diga, ai, ai!
O que é saracura...
C — É verdade, essa linguagem
Muda mesmo de figura,
O que nós chama casaco
Vocês só chamam mucura
E o que nós chama sericóia
Vocês chamam saracura...
A — Cego, diga para mim:
O que é jamaru?
Queira Deus você me diga
O que é jacuraru,
O que é macuracar ai, ai!
O que nós chama jambu...
C — É o que nós chama cabeça,
Vocês chama jamaru,
O que nós chama tejo,
Vocês chama jacuraru,
Tipi é mucuracar,
E agrião chamam jambu...
A — Cego, diga para mim
O que nós chama jibóia,
Quero que você me diga
O que é tiranabóia,
Diga aí pra eu saber, ai, ai!
O que é "pegando a bóia"...
C — No Piauí tem um besouro
De nome tiranabóia,
Nossa cobra-de-veado
Cresce aqui, chamam jibóia,
Em minha terra almoço e janto,
... tanto aqui só "pego a bóia"...
A — Cego, diga para mim
O que é a sacupema,
Veja se você me diz
O que é piracema,
Diga aí rapidamente, ai, ai!
O que nós chama panema...
C — O que nós chama raiz
Vocês chama sacupema,
O que nós chama peixe muito
Vocês chamam piracema;
A um sujeito preguiçoso
Chega aqui chamam panema...
A — Cego, diga para mim
A língua dos Tupinambá,
A língua dos Aimoré,
Ou dos índios Caetá,
Ou sobre os índios Tamoios
Ou índios Tamaracá...
C — Sobre as gírias dos índios,
Desde o Norte até o Sul,
Pixueira é coisa fria,
Um beijo chama meiru,
Tacioca é uma é uma casa,
Morada de caititu...
A — Agora o cego Aderaldo
Me respondeu muito bem,
Vi que gírias dos índios,
Ele segue mais além,
Pelo jeito que estou vendo
Você é índio também...
C — Meu amigo eu não sou índio,
Nasci num pobre lugar:
Que é tão propenso a seca
Que obriga agente emigra
Sol danado de Iracema,
Terra de Zé de Alencar...
A — Cego, deixa de mentira,
Tua terra não tem nome,
Tua terra é uma miséria,
É lugar que não se come,
De lá veio cinco mil,
Tudo pra morrer de fome...
C — Dos cinco mil que vieram
Algum era meu parente,
Uma era tio, outro primo,
Conterrâneo e aderente,
Mais esse povo só come
Massa de figo de gente...
A — Saí daí, cego canalha,
Com a sua poesia,
Nesta minha carretilha
Você hoje se esbandalha,
Teu cântico tem grande falha,
Quer cantar mais não convém...
Você somente o que tem
É entrar no bacalhau;
Apanhar de peia e pau
Cearense aqui não vai bem...
C — De onde tu vens contrafeito,
Cabeça de onça mancho,




Bote o matulão abaixo
E conte a história direito,
Me diga o que aqui tem feito
Por estes mundos além,
Se você matou alguém
Ou então se fez barulho,
Vai muito mau seu embrulho,
Paraense aqui não vai bem...
A — Quando eu pego um cantador
Dou três tacada danada,
Lhe deixo a cara inchada
De relho e chiquerador,
É o café que lhe dou,
É isto que lhe dou,
E não diz nada a ninguém,
Apanha e fica calado,
Triste e desmoralizado
Cearense aqui não vai bem...
C — Disse uma velha na rua
Que em outros tempos atrás
Você e um seu rapaz
Lhe roubaram uma perua;
Veja que moda esta sua
Roubando quem vai, quem vem,
Como tu não tem ninguém
Mais ladrão do que você.
Tome lá meu parecer:
Paraense aqui não vai bem...
A — O cantador que eu pegar
Pelo meio da travessa
Nem Padre lhe confessa
Enquanto eu não lhe soltar,
Dou-lhe arrocho de lhe quebra,
Osso e costela também,
Quebro tudo que ele tem,
Deixo-lhe o corpo em bagaço,
Tudo quanto eu digo eu faço,
Cearense aqui não vai bem...
C — Até as moças donzelas
Pediram aos cabras da feira
Para meter-lhe a madeira
E arrebentar-lhe as costelas.
Você abra o olho com elas,
Boa surra você tem,
Boa surra você tem,
Neste dia também vem
A velhinha da perua
Quebrar-lhe a cara na rua,
Paraense aqui não vai bem...
A — Também não quero brigar,
Não sou homem de intriga,
Eu não nasci para briga
E não vivo de pelejar;
Também não quero teimar
Porque isso não convém,
Lhe venero e quero bem,
Digo isso pode crer;
Não quero lhe aborrecer,
Cearense aqui vai bem...
C — Amigo, como mudou,
Que coisa misteriosa!
Tens o perfume da rosa
Que a pouco desabrochou.
Por isso tem o maior verdor
Do que lá no bosque tem.
O anjo lá de Belém
Ouviu nossa cantoria,
Entrarmos em harmonia,
Paraense aqui vai bem...
Havia quatro cervejas
Que um coronel apostou
Dizendo que todas quatro
Pertencem ao vendedor
Nós dois bebemos as cervejas
Nem um nem outro apanhou...





Abaixo palavras de poeta:

"No navio eu via com os olhos da alma o meu Ceará, minha pobre terra perseguida, que eu sentia ficando distante. E cantei então:

-Canto para distrair,
Este meu curto poema:
Vou fugindo da miséria
Que é este o penoso tema,
Desta terra de Alencar,
Deste berço de Iracema.
Fugi com medo da seca,
Do pesadelo voraz
Que alarmou todo o sertão
Da cidade aos arraiais.- "


As três lágrimas
(Cego Aderaldo)


“Eu ainda era pequeno
mas me lembro bem
de ver minha pobre Mãe
em negra viuvez.
Meu pai jazia morto
Estendido em um caixão
Pelo primeira vez!
E a pobre minha Mãe
Daquilo estremeceu:
De uma moléstia forte
A minha mãe morreu.
Fiquei coberto de luto
E tudo se desfez
E eu chorei então
Pela segunda vez.
Então, o Deus da Glória,
O mais sublime artista,
Decretou lá do Céu,
Perdi a minha vista.
Fiquei na escuridão,
Ceguei com rapidez
E eu chorei então
Pela terceira vez.
Meus prantos se enxugaram.
Das lágrimas que corriam
Chegou-me a poesia
E eu me consolei.
Sem pai, sem mãe, sem Vista,
Meus olhos se apagaram;
Tristonhos se fecharam
E eu nunca mais chorei.”





"E VIVA A ARTE DO MEU POVO"